Antônio Carlos da Rocha Costa

Material poético.

25/07/2010

Estudo 3

na areia
a sombra alonga
desdobra
recobra
avança

no morro
o sol confronta as núvens
encolhe
recolhe
extingue

na onda
a curva da espuma
remove
promove
movimenta

e o meio fio do mar
posiciona
direciona
orienta

e os pés molhados
ritmam o fim do dia

28/05/2010

The guidance of objects

Between life and artifacts
a gulf
that 20th century managed to bridge.

Life and artifacts are the same
today
or almost so.

Abstraction and empathy
assimilation and accomodation
are not distinguished by their targets
anymore
but by their very processes
as they should.

Ágnes:
me too
would rather follow
the guidance of objects
- any object -
and try to circunscribe the nameless
with poetic signals
reduced to a minimum.

For Ágnes Nemes Nagy
and the nameless,
and the minimum of poetic signals.

19/05/2010

aí está

tanto quiseste
tanto esperaste
aí está:

não escondi
sorri
dancei

soltei o i
cantei prá ti
falei

Quiques

Quique!
[ vovô ]
Quique!
[ mamã ]
Quique!
[ até a cadeira quiquei ]

Para Fernandinha,
fotógrafa feliz.

13/04/2010

meu modo de falar

poucas palavras
predicados truncados
minimalismo

nomes
termos
orações nominais

quase nenhum verbo
no meu modo de falar

11/04/2010

matéria prima

não o sonhado
o vivido
não o imaginado
o feito

interno ou externo
visto ou falado
ouvido ou pensado
mas
feito e vivido

o acontecido
o não planejado
o ocasional
o não intencional

o existente
não o idealizado
o concreto
não o formalizado

editado
formatado
apenas no depois

09/04/2010

Estudo 1

Quase ninguém usa rima
e o verso livre domina.
Mas, versos livres não faço,
que, livres, poucos dão certo:

pouco verso é obra prima,
se a rima não predomina.
E se a rima é de aço,
a clareza anda por perto:

com rimas mal definidas,
qualquer poeta hesitante
"poemas" pode montar,

cheios de “linhas” partidas
que, só raro, em pouco instante,
o leitor pode cantar.

Verso livre

Não estou pronto
pro verso livre,
que livre é o poema que eu faço.

Não me prendo
a metro e rima,
mas sem metro e rima não passo.

05/04/2010

Visões em preto e branco

                        after "Seville After the Rain"

chuva, riscos
rostos, sombras
lampejos, manchas
contrastes
estampas da cidade
reflexos da umidade

carros, postes
nuvens, ruas
cavalos, crianças
trens
vitrines que se abrem
pessoas que se vêem

estátuas, bicicletas
esquinas, guarda-chuvas
cães, poças d'água
multidão
amigos que se beijam
calçadas que se vão

espaço
luz
espalhamento
visões em preto e branco
Sevilha em movimento

Fotógrafos

                   para Paulo Ramalho

Um é bom,
fotografa
os eventos.

Outro é craque,
fotografa
os sentimentos.

Grande é aquele
que, num só clique,
fotografa
os dois momentos.

01/04/2010

campos inusados

                 ao modo da Metade Sul do RS

campos inusados
cupinizados
planuras verdes intocadas
sem gado

espaço de pouca gente
de não trabalho
sem plantação
mar de energia perdida
sem produção

pampa do gaúcho ausente
do dono avesso
indiferente
riqueza que não se faz
latente

terra perdida
sem divisão
futuro que se esvai
na omissão

arte do corpo

nome no antebraço sol no cotovelo borboleta na barriga flor no tornozelo peixes na virilha arcanjos nos quadris raios no pescoço ganchos no nariz corpos decorados espantando o olhar peles estampadas querendo assemelhar percursos percorridos caminhos esgotados símbolos exauridos escudos industrializados muros pontilhados evitando a invasão marcos desbotados remendando a distorção

31/03/2010

café

larga janela-vitrine
largo do calçadão
café dos homens de sempre
aquário da conservação

gancho de pegar xícara
máquina de ferveção
fichas gastas coloridas
mulheres na servidão

relógio de dez prás duas
isqueiro preso ao cordão
chocolate de bundinha
granito, encosto, balcão

alfaiates centenários
engraxates de plantão
grupos em revezamento
egos em circulação

rumores de utilidades
cochichos de confissão
rodinhas de bate-papo
compadres, aglomeração

e, às vezes, também
tardes de entristecer

velhos acantoados
parados, olhos no chão
silêncios compartilhados
aquário da solidão

30/03/2010

avesso

brancos
bronzeando ao sol
criticando Michael Jackson

Condensando

               ao modo de Pound?

Dito há tempos, com cuidado:
“Poetar é condensar”.

Pensando minimalista,
assim me soa o falar:

pendurar em uma linha
toda idéia que brilhar;

narrar em uma estrofe
toda história que sonhar;

musicar em um só verso
todo canto que entoar.

29/03/2010

BIMM


b b
r r r r
i i i
q q q
u u u u
m e e i
e m
d t p
i a r
t p e
a o s
ç e s
õ m õ
e a e
s b b s
r r r r
i i i
q q q
u u u u
e e


--

Brique
Impressões
Meditações
Metapoemas

é o nome do meu livro de poemas.

panfleto extensionalista

metáfora
óbvio da poesia

não mais metáforas intensionais
não só

nem positividade
apenas

extensionalidade
metonímias extensionais

Ela

Na harmonia do estar,
na entonação do falar,
no compasso do andar,
no contra-ponto do olhar,
um mistério musical.

28/03/2010

Quisera


a naturalidade do falar,
do narrar:
a facilidade do fazer
me fala inveja;
fraseado longo e lijeiro,
detalhes,
continuidade:
troços que não alcanço;
histórias com princípio
e fim
e meio:
direitas;
quisera ser falante,
loquaz:
não contido,
comprimido;
inveja
inconfessável,
incontornável:
deplorável.
quisera contar histórias,
animar,
aquecer:
avivar;
quisera enriquecer,
enaltecer,
dourar:
enternecer;
quisera ter empatia,
galhardia,
valentia:
alegria;
quisera captar,
pela intenção,
a atenção;
mas, truncado
permaneço,
sem perdão.

catálise - catenação

                           pelas mãos de Costa Lima
e João Cabral

poética catalítica

da saturação provocada
inesperada

~ poemas de dizer e cantar

poética catenária

da cesura operatória
costurante, contrastante

~ poemas de ler e pensar

27/03/2010

Mitiquita

Filhos, que eu amo tanto,
Mitiquita, que eu amo também.
[— Oh, que linda esta roupa
que no armário encontrei.]

Quisera poder ficar
todo tempo com vocês.
Quisera poder lhes dar
o tempo que não lhes dei.

Quisera ler prá ti, Mitiquita,
como prá mim leu meu pai,
histórias de adormecer,
de fazer o sono vir,
histórias de enternecer.

Quisera brincar de casinha
como a Lila fez com a Jú.
Quisera jogar futebol
[— Gou!]
e ver o Chaves contigo,
trinta vezes como o Dé.

Quisera te ver todo dia,
todo dia,
Mitiquita de luz e alegria.

26/03/2010

ondas de história


ondas que
se espalham
lentamente
molhando o mundo
de modo desigual
ondas que
esquecem
perdem
não são
o impulso que as gerou
azar de quem não vê
a borda
onde está
a margem
onde as ondas
desaguam
azar de quem não vê
de onde vem
as águas
que ondulam

Estratagema


Arrastar a frase
ondulante
como um linha cerzida
no voltear de um horizonte
sem fim
e ao mesmo tempo
prolongar o texto como
um pretexto
para incluir frases feitas
pré-feitas
perfeitas
arranjando as palavras
em versos curtos
menores do que deveriam
ser
resulta em circunvalação
enrolação
do leitor desprevenido
desatento
que pensa estar lendo
um poema
mas só está lendo
um estratagema.

intensionalidades

dizer o que é pelo que não é
vertendo o direito no avesso
o direto no inverso

afasta o olhar do que pode olhar
afasta a idéia do verso
afina o que é espesso

pior

cria mundos que não são
melhores do que os que são
iludindo o leitor
com sua própria imaginação

intensionalidades rejeitam
pela fição que produzem
metáforas falsificam
pela fantasia que induzem

empatias e abstrações



essências existências

reflexões insatisfações

confianças desenganos

empatias ansiedades

metonímias metáforas

naturalidades ornamentos

acomodações assimilações

contemplações imposições

extensões intensões

concreções abstrações

encarar

entender

controlar

viver



(ao modo de W. Worringer)

longínqua escriba


instigante discurso
de
abrangente mirada

cativante horizonte
de
ousado perfil

pertinente fraseado
de
segura tramada

cuidadosa textura
de
inventivo fabril

com teu
pensar
fazes pensar

com teu
sonhar
fazes sonhar

com teu
escrever
te acompanhar


em jogral
para Glenda
na Espanha

24/03/2010

Piaget, sobre a linguagem cotidiana.

A linguagem corrente, principalmente adaptada às operações lógicas, permanece inadequada à descrição do objeto individual. Não há necessidade, por outro lado, de relembrar sua pobreza essencial quando se trata de exprimir o vivido e a experiência pessoal.
J. Piaget - A Formação do Símbolo na Criança.

21/03/2010

Começando...

Então, estou nessa: finalmente, criei um blog.
É para colocar meu material poético.
Vai levar algum tempo, mas (aos poucos) os poemas vão aparecer.
Abraços,
Antônio Carlos

P.S.: Por via das dúvidas, todo o material postado aqui está com direitos autorais registrados no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional.

Quem sou eu

Pelotas, RS
Consta que sou professor, cientista e poeta. Mas ao certo, certo mesmo, não sei.